quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Vovô não viu o vôo - Alcione Araújo

                                                                
Cabelos de neve e rosto corado, o avô franze a testa e aperta os olhos atrás dos óculos, à procura do que atrai a atenção do neto, sentado entre nós, no banco da praça. O garoto, de uns 5, 6 anos, está paralisado pelo fascínio do espetáculo de um beija-flor parado no ar, o longo bico enfiado na flor, sugando-lhe o néctar. O avô olha para o neto, para o jardim, de novo para o neto, e, ao voltar ao jardim, vislumbra o objeto do fascínio – um sorriso maravilhado ilumina seu rosto.
O olhar para o neto agora anuncia o achado. A mesma magia encanta duas vidas, uma que descobre, outra que lembra. Na troca de olhar, a camaradagem de velhos parceiros e a cumplicidade de crianças amigas. Entregam-se à admiração do pássaro que levita. De relance, o neto me sorri, num convite a compartilhar. Mais que ver o pássaro, admiro vê-los contemplar o pássaro. Mãos cruzadas à volta do pescoço e cabeça aninhada no peito do avô, o neto se deslumbra com as paradas e guinadas da ave. Tomado pela emoção do momento ou, quem sabe, por remotas reminiscências, o avô fala como quem faz íntima confidência: “Ele bate as asas pra cima e pra baixo mais depressa que um sabiá, um pardal ou qualquer passarinho. Tão depressa que a gente mal vê as asas batendo. Há anos que não vejo as asas deles, nem com esses óculos novos. Mas, na sua idade, eu ficava parado, meio bobo, meio aéreo, encantado de ver como flutuavam no ar.”
O beija-flor voa numa direção, súbito muda para outra e some entre as folhagens. Olhos arregalados com a agilidade das manobras, o garoto me olha para confirmar se assisti. O avô não entende quando o neto o fita com a mesma intenção: “Você me olha com cara de quem não acredita, mas é verdade. Eles voam como um helicóptero. E sabe por quê?” O neto ri, balançando a cabeça. Nos seus olhos dança uma esperteza superior. Busca em mim um cúmplice para rir do avô, que continua: “O estômago deles é pequeno, e, como gastam muita energia pra flutuar, precisam comer a toda hora. Que nem você, que não para quieto e quer comer tudo o que vê.”
O neto dá uma risada. A esperteza do olhar ganha um ar traquina de divertido cinismo. O avô percebe e dá mais ênfase: “Olha bem. Presta atenção. Quando ele para no ar, parece que tem mil asinhas batendo de cada lado do corpo, não é?”
“Ele já foi embora, vô”, murmura o neto, talvez para que eu não ouça. O avô lastima: “Foi? Que pena!” Sorri, irônico. “Ivo viu a uva, mas o vovô não viu o vôo.” E prossegue, curioso. “Não há outros por ai?” O neto, sério: “Não, vô.” E me lança um sorriso ambíguo, como se não desse importância ao fato de ele não ter visto, induzindo a que eu também não dê, ao mesmo tempo que cinge o peito do avô com os braços. Pelo olhar, percebe que sei do que tem medo e protege-se sob a asa do avô, impondo silêncio. Mas o ruído das folhas, o chilrear dos pássaros, o marulhar do repuxo – prenúncios do outono tardio – falam alto.
    O avô sussurra: “Quer saber outro segredo?” “Quero! Oba! Conta, vô! Conta!” “Quando Deus acabou de criar as aves, olhou para o beija-flor e disse: “Você colhe o seu alimento no beijo das flores, tem penas furta-cores como nenhum outro pássaro, é capaz de parar no ar, o que nenhum pássaro consegue, e ainda canta mais que um canário. Assim, será o rei dos pássaros. Não é justo. Não quero tanta diferença entre vocês. Terá que renunciar a uma dessas qualidades. Permito que escolha qual. O beija-flor pensou, pensou, e quando, enfim, ia responder, descobriu que sua voz não saía. Esforçou-se, e nada. Deus, que tudo sabe, sabia que ele renunciaria à voz e silenciou-o antes. Por isso, o beija-flor é lindo, vive entre as flores, sabe pairar no ar, mas não pode cantar nem inventar histórias, como o vovô faz pra você. Agora me diz. Cá entre nós, se Deus mandasse você escolher entre ser lindo, beber o mel das flores e pairar no ar, o que escolheria?” E ele: “Contar histórias. Como o vovô.”
Abraçam-se com a ternura de meninos que se abraçam. Até que o neto me olha como se denunciasse um intruso, levanta-se, segura a mão do avô e diz que é hora. Ao se afastarem sorri em despedida e, embora fosse conduzido, postou-se altivo, lado a lado, com o avô.nfala como quem faz m sabe, por remotas reminiscda ave. Tomado pela emoçr. Mais que ver o pre, outra que lembra. Na troca de ol

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